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APONTA & CHUTA! - UM BLOG DE ENERALDO CARNEIRO

Pensando alto..
18/04/2007 às 11:43 . Autor: Eneraldo Carneiro

Escrevi isso aqui na insônia dessa noite. Já estive para falar sobre essas coisas sempre que vem à tona, ciclicamente, esse papo de guerra de preços, profissionalismo versus amadorismo, etc., mas acabava não escrevendo. Agora..bom..

É que uma coisa sempre me incomodou nesses papos. É que, nas mensagens que acho mais interessantes, que apontam caminhos, e estratégias, não somente como teoria, mas via exemplos concretos e bem sucedidos, ainda assim sinto falta de uma visão mais ampla das coisas. Mais coletiva e menos individual. Não estou desprezando as estratégias individuais, sempre necessárias. Só não acho suficiente. Simplesmente deixar a ”seleção natural” agir e buscar ser o mais “adaptado”..digamos que não não me conforta muito não. Pode ser defeito meu e eu esteja errado, ou seja inadaptado, enfim...

Penso que há muita perplexidade e incerteza (pelo menos eu estou), e para entendermos minimamente o que está acontecendo, e termos alguma perspectiva realista para além das saidas individuais, precisamos fazer um esforço de reflexão que vá além dos clichês e lugares comuns. Olhar o quadro de forma mais abrangente, em perspectiva, por todos os lados. Enxergar sua complexidade, e entender, portanto, que não existem soluções simples, mágicas, unidimensionais. Que não somos os únicos atores da peça. Encarar as coisas como elas são, sem julgamentos de valor.

Estamos atravessando um processo que não é exclusivo do ramo fotografico, nem exclusivo do Brasil. Mas, que possui especificidades do ramo, por um lado, e do país, por outro.

Na fotografia, estamos vivendo o impacto direto da reestruturação produtiva desencadeada pela informatização e a digitalização, em tudo similar ao que ocorreu e ocorre em todas as áreas: concentração e otimização de processos, com redução da mão de obra, isto é, cada vez menos pessoas são necessarias para fazer as mesmas coisas, ou, por outro lado, cada vez menos pessoas trabalhando cada vez mais (já repararam como os anúncios dessas ferramentas eletrônicas portáteis, em geral mostram a pessoa trabalhando no que deveria ser um momento de lazer?). No nosso caso, fotógrafo assumindo tarefas que eram antes do laboratorista, e/ou do gráfico, p. ex.. Ou designers fotografando e fotógafos fazendo design. Aqui acho importante não fazer um juízo de valor, pois se trata, a meu ver de um elemento estrutural, digamos assim, dessa barafunda. Acho muito difícil prever aonde isso vai dar, além da constatação óbvia de que segmentos, ramos e profissões (incluindo nosotros) eventualmente irão desaparecer. Ou no mínimo se transmutar em algo bem diferente, o que dá no mesmo. Nada disso é novo. Já aconteceu antes na história do capitalismo.

O dado agravante ao meu ver, é que, além desse dado real de reestruturação produtiva, enfrentamos os impasses do desenvolvimento do país. Impasses históricos. Os chamados países desenvolvidos quiseram e souberam incorporar vastos contingentes da sua população, constituindo pujantes mercados internos de consumo, ou seja numerosas e prósperas classes médias. Nós, ao contrário, insistimos na exclusão. Jamais constituimos um mercado interno massivo, compativel com nosso territorio e população. Logo, nunca fomos uma categoria profissional tão numerosa e próspera (ao que eu saiba) , que sutentasse, p.ex., 1 assistência oficial Canon/Nikon em cada capital. Não sendo nem numerosa nem próspera, tãopouco logramos nos organizar como profissão regulamentada no devido tempo, ou com representações e associações nacionais por segmento, ao estilo estadunidense. Exceção feita aos fotojornalistas, como segmento do Jornalismo, e não sem problemas.

Não bastasse esse atraso historico, estamos há mais de 12 anos com a economia estagnada, com crescimento pífio, atrás de todas as economias comparáveis à nossa. E em franco processo de desindustrialização, retornando (se já não retornamos) a passos largos ao que éramos no fim do séc. XIX, início do XX, do ponto de vista econômico: exportador de commoditties. O que é muito bom pros plantadores de soja e pro mercado imobiliario de Miami, mas não me parece muito alvissareiro para prestadores de serviços de fotografia, em geral.

Então, colegas e amigos, não podemos resumir o problema à burrice dos clientes que "só querem preço", e à "canalhice" dos concorrentes, sejam velhos ou novos (o que não exclui a burrice daqueles, nem a canalhice destes).

Há, de fato um processo mais amplo de transformação e mudança tecnológica, que ainda não se completou, nem sabemos quando, se, e aonde terá termo;

Uma das consequências é uma superoferta de imagens, tanto de estoque quanto de encomenda, muito superior à demanda, levando à inevitavel queda de preços;

E, no nosso caso, com o agravante de um mercado em franca contração, maximizando a queda/guerra de preços. É a velha e implacável Lei da Oferta & Procura...

É factível atacarmos o problema pelo lado da oferta? Mediante algum tipo de reserva de mercado?

A expressão "reserva de mercado" ficou maldita entre nós em função da notória e execrada Reserva de Mercado de Informática. Maldição amplificada pela propaganda ideológica neo-liberal, a condenar qualquer mecanismo de proteção de mercados, via barreiras tarifarias, e outras. Ainda que ache a expressão inadequada, gostaria de ponderar a respeito sem preconceitos. Acho-a inadequada, não por ter sido estigmatizada, ou por ser contra políticas protecionistas em geral, mas por que Regulamentação Profissional, além de ser uma bandeira mais antiga, descreve com mais precisão do que se trata. Porque regulamentar uma profissão significa estabelecer regras de ingresso e permanência. O que pressupõe a criação de instâncias, mecanismos institucionais que arbitrem e apliquem essas regras. Bem como o estabelecimento de um padrão de formação profissional a ser seguido. Enfim, na constituição de uma corporação (outra palavra estigmatizada) profissional com identidade claramente definida, em relação à si mesma e à sociedade em geral.

Em principio não sou contrário a que se tenha uma Regulamentação Profissional de Fotógrafo. Mas receio que hajam sérios obstáculos a transpor: Primeiro, acho que esse bonde nós já perdemos, há talvez uns 40/50 anos. Mas, o problema principal talvez sejamos nós mesmos. Nossa falta de unidade, reflexo, talvez, da enorme diversidade de interesses (legítimos diga-se), praticas, etc, que sempre se abrigou sob o guarda-chuva da palavra 'fotografia'. E com conseqüência nossa falta de organização (talvez tenha que dar um desconto aí pois durante décadas 'organização' era coisa de comunista). Não as tivemos nas décadas passadas, pouco ou nada indica que teremos agora. Especialmente agora quando não fazemos (bom..EU não faço..) a menor idéia de para onde essa "profissão" está indo. De fato talvez não saibamos sequer o que ela é hoje. Agora. 18/04/2007. Sabemos? Quem somos? Quantos somos? Quanto dinheiro movimentamos? Quantos empregos geramos? Qual percentual do PIB representamos? Somos geradores de divisas para o País? Ou muito pelo contrário (com a palavra a B&H)? Dá para ir a algum lugar sem ao menos tentar responder essas questões? Sem falar, falando, das oposições, ou alguém acha que ninguém vai ser contra? Ninguém vai gritar 'censura!'? Não vão vir os paladinos da 'liberdade de expressão' ameçada pelos 'dinossauros corporativistas', etc.? É ruim hein....

Se equacionar a oferta já dá pano pra manga, o que dizer da demanda? Que em principio, independe completamente da nossa vontade? É um campo muito mais amplo, com diversos outros atores. Caso alguém ainda não tenha reparado, estive esse tempo todo falando de politica. Flagrante violação das regras do grupo. Enfim..perdido por um....Agora estamos até o pescoço no terreno da Política. A com 'P' maiúsculo, não a outra do 'é dando que se recebe'...Politica industrial, tarifária, de crédito, e por aí afora, ou melhor, adentro. Espinhoso paca! Mas, receio que não tenha muito para onde correr não. Exceto os que tem passaporte da UE, greencard, etc. Fora a esses, goste-se ou não, não estamos flutuando no vazio. Vivemos numa sociedade, que tem uma história, e cujos rumos nos afetam a todos. E eu realmente espero estar enganado, mas mantido o rumo atual....fotógrafo ou não, regulamentado ou não, simplesmente não vai ter.

Não não sou pessimista (se eu contar o que acham os pessimistas....). Mas acho que temos que encarar a realidade, para começar.



Eneraldo Carneiro

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